Mestre, Profeta, S a n t o
Agostinho
da Silva está vivo! A sua presença,
concreta se bem que não física, a sua influência imensamente
abrangente, o seu espírito multifacetado, iluminam a minha existência
e a minha experiência, tal como as de muitas outras pessoas, ontem, hoje
e amanhã.
Foi há vinte anos. Conheci pessoalmente o professor em 1984, pouco depois
da morte do meu pai, por intermédio de uma boa amiga e uma grande senhora
chamada Maria Violante Vieira, sua vizinha, amiga e antiga aluna, presidente
do comité português da UNICEF e uma das proprietárias da
empresa onde o meu pai trabalhava.
O encontro com este homem de idade já avançada mas de mente surpreendentemente
jovem, lúcido e interessado por tudo o que o rodeava, constituiu para
mim, desde logo, como que um alívio, uma ajuda, um amparo depois do grande
sofrimento por que passara. Porém, e para além disso, aquele patriarca,
ao acolher-me em sua casa, oferecendo-me a sua amizade como a um membro da sua
família, da sua grande família que se estende para além
do mar, deu assim início a um percurso pessoal de diálogo e de
descoberta, que me permitiu alargar os meus horizontes de uma maneira que antes
nem imaginara que fosse possível.
Ainda me lembro como se fosse hoje. Foram tantas as vezes em que, vindo da Rua
da Escola Politécnica ou do Bairro Alto, chegava à praça
do Príncipe Real e descia alguns passos até à Travessa
do Abarracamento de Peniche, onde, no terceiro andar direito do número
sete, se situava a sua casa, a sua “escola”, o seu “santuário”.
Entrava e sentava-me, reconhecendo as coisas e as cores que já se haviam
tornado familiares, os objectos pessoais, os livros, os gatos, a janela com
Lisboa e o Tejo ao anoitecer. A mim, tal como a outros homens e mulheres, o
professor concedia-nos o privilégio do seu tempo e da sua atenção,
e conversávamos. Uma conversa sem rumo definido, sem orientação
prévia, em que se podia falar de tudo, mas em que os temas recorrentes
eram, invariavelmente, Portugal, os portugueses, os que falam português,
quem são, o que fazem, de onde vinham, para onde iam. Houve que dissesse,
ou sugerisse, que Agostinho da Silva poderia ser uma reencarnação
do padre António Vieira. Na verdade, as semelhanças em termos
de estilo, de vida e de escrita, de percurso e até mesmo de fisionomia
eram várias e impressionantes. Todavia, o mais importante é lembrar,
mais do que as coincidências, o facto de ele ter sido, tal como o ilustre
eclesiástico e diplomata do século dezassete, a personalização,
a corporização concreta e verdadeira de ideias, de conceitos,
de expressões que outros conhecem meramente no plano teórico.
Quais? “Portugalidade”, “Lusofonia”, “Encontro
de Culturas”, “Interdisciplinaridade”, “Luso-Tropicalismo”,
e tantas outras. A actividade, a carreira e as obras deste homem valeram por
dezenas, por centenas de acordos culturais, de institutos de investigação,
de bibliotecas. Está por fazer-se o “inventário” completo
da sua influência em várias áreas do espaço que fala
a língua de Camões e de Pessoa, na filosofia, na educação,
na cultura, nas artes, até mesmo no pensamento político e na acção
social, em Portugal, no Brasil, em África, em todo o Mundo.
Foi há dez anos. Quando ele nos deixou, em 1994, eu estive entre a multidão
de admiradores e discípulos, conhecidos e desconhecidos, que passou diante
do seu caixão no Mosteiro dos Jerónimos. Pouco tempo depois da
sua morte, fui pai pela primeira vez. A vida parece às vezes possuir
estranhas harmonias...
Desde então a minha vontade de escrever e de participar nesta Causa,
da qual Agostinho da Silva foi o Mestre, o Profeta e o Santo, tem crescido continuamente
e irreversivelmente. E tenho tentado aproveitar todas as oportunidades, grandes
ou pequenas, sozinho ou acompanhado, para aumentar, espalhar e solidificar a
herança que ele e muitas outras pessoas nos deixaram. Sou um “guerreiro-sacerdote”
da “Ordem” que ele fundou. Saibamos colher os frutos da árvore
que na terra ele plantou. Saibamos navegar no barco que à água
ele lançou.
Octávio dos Santos
Foram tantas as vezes em que, vindo da Rua da Escola Politécnica ou do Bairro Alto, chegava à praça do Príncipe Real e descia alguns passos até à Travessa do Abarracamento de Peniche, onde, no terceiro andar direito do número sete, se situava a sua casa
Uma conversa sem rumo definido, sem orientação prévia, em que se podia falar de tudo, mas em que os temas recorrentes eram, invariavelmente, Portugal, os portugueses, os que falam português, quem são, o que fazem, de onde vinham, para onde iam.